Não podemos salvar todos?!

Por: Muriel Mendes Dentro: Mundo Cão Em: Comentário: 0 Hit: 248

Podemos salvar todos? Bem, certamente muitos dirão que não e não estarão errados. Mas, digo eu, podes salvar um de cada vez, se quiseres, podes fazer a diferença numa vida que seja.

Dia 26 de Março, primeiro dia de férias – férias à séria! Chegamos a Garragozela – Seia, para passarmos 8 dias de descanso absoluto nas montanhas. Escolhemos uma casa numa freguesia portuguesa de 380 habitantes e nada poderia correr mal.

Mal chegamos a simpatia da vizinha transbordou para fora, tal como o nosso filho, porta fora levado pelo braço para brincar com o seu neto. Terror de mãe “oh céus onde vai o meu menino”. Digamos que na cidade, isto seria rapto e nós estaríamos a ligar para o 112!

Entramos na nossa casa alugada, perfeita para os nossos dias, descarregamos o carro e de repente percebemos que estamos sentados no alpendre, a apreciar um final de tarde ao sol, dois miúdos a brincar acabados de se conhecerem e um cão vadio nas nossas escadas. Estávamos no cenário perfeito.

Dia 27 de Março, segundo dia de férias, vamos lá ver essa Serra! Um dia em cheio, acaba com um passeio pela Vila, depois da visita do nosso vadio, com quem tiramos imensas fotos e brincamos mais uma vez no alpendre da nossa casa. Deixamos o nosso vadio ir à vida dele e fomos caminhar, uma vez que o São Pedro nos estava a presentear com mais um final de tarde solarengo. Mas na volta, um trepidar na calçada, um estrondo, um uivar de dor, o ladrar dos cães que pressentiram o pior. O coração a disparar… Não pode ter sido isso, simplesmente não pode estar a acontecer…

O nosso vadio… o nosso vadio foi violentamente atropelado por uma automobilista, que apesar de ter parado e ter justificado o acto com a falta de visibilidade do por do sol, não prestou qualquer auxilio ao cão, estendido no meio da estrada, com uma poça de sangue a sair-lhe do focinho, da boca, não conseguindo mexer-se ou reagir. O primeiro pensamento foi resguardar o João disso tudo, e foi com o pai para casa. A primeira atitude foi ficar ao lado dele.

Não estou na minha casa, não estou na minha cidade, não sei o que fazer, quem chamar, quem ligar. Todos diziam “já está morto”, mas ele respirava, ele estava vivo, e eu tinha de manter a esperança, porque não era possível isto estar a acontecer. Aquele doce de cão, que nos presenteou com as suas boas vindas únicas não podia estar a dar os seus últimos suspiros, mas se tivesse não podia deixar que sofresse até lá.

Aproxima-se uma carrinha que claramente quer seguir caminho, mas eu não saí do meio da estrada e insisti que não queria saber se diziam que era um caso perdido, que ninguém lhe ia passar por cima. Os senhores com pressa de passar lá arranjaram um pedaço de plástico e desviaram o vadio para um degrau de escada próximo. Chega no meio da confusão uma senhora que alimentava o vadio e finalmente tenho alguém ao meu lado para ajudar.

Ligamos à GNR, fizemos o que podíamos fazer. Tratamos do vadio como nos foi possível com os conhecimentos que nos faltavam. O sangue não parava de lhe correr pelo focinho, a respiração borbulhante fazia-nos crer no pior, o facto de estar lá deitado, sem reação, sem se levantar fez-nos quebrar a esperança que algo mais poderíamos esperar que a sua morte, mas continuávamos a avaliar a situação, esperando nas palavras que tudo iria passar, que nada estaria perdido e que amanhã poderíamos fazer de conta que nada tivesse acontecido.

Mas aconteceu e temos de lidar com isso a quente. Temos de lutar por ele, enquanto ouvimos as dezenas de pessoas que se juntaram à volta do acontecimento, algumas revoltadas por se tratar apenas de um cão, outras porque parece que para chamar a GNR devíamos ter motivos mais nobres e outros preocupadas com o vadio, mas sem defender o seu valor. Outras simplesmente que cuidavam dele mas que não pareciam sentir qualquer dor que fosse, por mais estranho que essa falta de empatia me tenha causado na altura.

Duas horas e meia, foi o tempo que estivemos na rua, à espera que os senhores do canil o viessem recolher. Pensamos o pior, ninguém o iria tratar, ninguém o iria cuidar ou valorizar. Não seria visto nesse dia sequer e deixa de estar nas nossas mãos o seu amanhã. As lágrimas começaram-me a cair pela cara. O sentimento de impotência, a frase a repetir na cabeça “não os podes salvar a todos”, o sentimento que não estava a fazer tudo o que podia, que devia fazer mais, lutar mais, ser mais, pela vida dele.

Essa noite foi horrível, tudo se repetia na cabeça num ciclo vicioso, com todos os pormenores a ficarem cada vez mais claros. Acordei várias vezes durante a noite e de manhã ainda não eram 8 horas, desesperava pelas 9h para poder ligar ao canil e saber do vadio. Mas estou de férias, e é só um cão, não vou deixar que isso me estrague os dias, a semana, a culpa não é minha, a responsabilidade não é minha, o seu destino não é meu. Ligo ao canil, o vadio não mexe as patas, terá de levar uma injeção para ver a sua reação, é o que me sabem dizer. Mais nada…

Por isso saio de casa, vou para as minhas férias e não me deixo afectar, é esse o meu papel. Está tudo bem, vou fingir que não foi nada demais! É só um cão…

Mas não é só mais um cão, é o cão que nos acolheu na sua vida numa tarde de sol e nos deu o seu melhor sem pedir nada em troca. Por isso, não, ele não é da minha responsabilidade, não foi culpa minha, mas não quero desistir dele, algo não me deixava desistir dele. Não entrando em pormenores, eu e a senhora que alimentava o vadio, não desistimos, ligamos todos os dias para o canil, fomos visitá-lo para garantir que as palavras correspondiam a realidade e entretanto pressionei do meu lado para arranjar alguém que o pudesse adoptar.

Depois de 10 dias de férias, voltamos à casa e mantive o contacto com o canil e o veterinário municipal, para que fosse possível adoptar o vadio – agora Mr. Moon – no fim de semana que se seguia. Agarramos na trouxa, percorremos mais de 600km, pagamos mais de 50€ de portagens, mas o Mr. Moon estava à salvo! Marcamos a sua castração para a segunda feira seguinte, na Clínica Vetmonti, com a Drª Susana que tem sido impecável e a nossa grande ajuda nestes casos, fazendo o que é possível para ajudar, os repetidos casos de abandono que vão lá parar…

O Mr Moon, está agora livre de pulgas, carraças, bolinhas :P e tem um tecto, segurança, comida regular e família para dar os seus tão preciosos mimos de cão e receber carinho de volta (bem, o Mr Moon revelou-se um fazedor de asneiras exímio apesar do seu fémur deslocado, fruto da pancada do carro).

Eu, bem, eu confesso que amo de paixão aquele cão. Não sei explicar mas é simplesmente especial e faz-me sentir a pessoa que quero ser. É uma capacidade canina, que eles oferecem a quem quiser receber! Por isso no final do dia, podes saber que não podes salvar todos, mas o teu coração ficará mais cheio se salvares aquele que se cruza contigo!

Os nossos agradecimentos à GNR de Seia que se deslocou ao local e fez o que podia, ao canil (funcionários e veterinário) que preservou a vida do Moon, a Vetmonti e à família que acolheu o Moon! Com a ajuda de todos podemos sempre mais.

Temos a decorrer neste momento uma campanha de medalhas solidárias para ajudar a UPPA, em que cada medalha vendida vai corresponder a 1KG de ração que iremos doar à associação. Até ao final de Julho podes fazer o teu pedido! Pelo Mundial

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